quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

A moça é quente, Seu Fulano!


Eu Eu estava só no apartamento do hotel, apesar de que um cínico tentou passar a noite comigo, mas era apenas um "comedor" do tipo: "você é um guardanapo que eu vou usar e descartar depois" - o camera-man. Eu estava me sentindo estranha, deslocada, e cansada; sem vontade nenhuma para ter uma noite de intimidades com alguém que me exibiria depois como o trofeu de uma conquista efêmera.

Sei que avisaram na recepção do Hotel que eu era VIP, desta vez era VIP mesmo - "Very Important Person", não como de outra vez que fui considerada "VIP" - Vadia, interesseira, Prostituta". Desta vez VIP indiscutível: convidada de uma famosa produtora para iniciar sua carreira como diva de edições eróticas.
"A moça é quente, Seu Fulano!" Com essa frase, e umas fotos minhas, um cliente meu me recomendou para Senhor "Fulano", o Diretor da produtora. Fui tratada a "pão de ló" (muito bem), passagem aérea e hotel duas estrelas - a turma tinha dinheiro numa época em que a pirataria ainda não comandava, pois no tempo das fitas VHS já era possível a cópia pirata, mas não como hoje quando um DVD é copiado em série e colocado à venda nos camelôs.

Mas não havia muita razão para esse tratamento VIP, eu era só uma prostitutazinha de luxo, tão comum na grande cidade onde desci de avião. Do aeroporto fui direto para o escritório da produtora. Não demorou quase nada e eu já estava numa sessão de fotos profissinais completamente nua, sosinha num estúdio com um fotógrafo. Depois levaram-me para um quarto/estúdio aconchegante e fui avisada para esperar por um rapáz que improvisaria uma cena comigo.

Fiquei nervosa. Serviram me um suco de fruta e eu o esperei ridicularmente (penso eu) enrolada numa toalha.

O camera-man era co-produtor e inventou uma estória na qual o rapaz (bonito e de porte atlético) me flagrava só de toalha e me seduzia.

Fiz sexo com ele tentando não olhar para a camera.

Já de noite, o camera-man me levou para uma lanchonete e para o hotel, onde tentou passar umas horas comigo - de graça!

-"Não, não, por favor, até amanhã!"

No apartamento liguei a TV e assisti qualquer coisa. Completamente só mas com a sensação de uma presença lá dentro, ao ponto de olhar para debaixo da cama em busca de alguém. Depois, deitada, folheei uma revista... li algum artigo interessante, relaxei tentando dormir, mas sempre com a sensação da presença intangível...

...uma mulher quase vaporosa se delineou em frente da cama, e com uma voz que não era material, pois entrou em minha mente como pensamento intruso - reconheci minha avó, por parte de mãe, que havia falecido dois anos antes.

Do que ela me transmitiu, vai o que posso transcrever:

"Filha, volte! você é um espírito velho, não estacione na prostituição, deixe tudo, volte atrás, volte para seu lar, para seus pais, sua mãe está muito triste, isso não serve para seu futuro. Você mergulhou num mundo perigoso. Esses que estão lhe agenciando lhe são inferiores, são maus! Se você criar raizes com eles, afundará - é terreno movediço! e irão à sua procura quando você desistir, se desistir tardiamente, não aceitarão lhe perder, podendo até lhe perseguirem de morte. Volte atrás, volte!"

...e a visão inesquecível desintegrou-se!

Eu tinha comigo um dinheiro que me permitiu comprar uma passagem aérea no dia seguinte de volta para Recife. Quando amanheceu o dia, desci para a recepção:

-"Há alguma coisa a pagar?"

- "A senhora consumiu alguma coisa do frigobar?"

-"uma coca-cola!"

-"então é só isso, a diária está paga pela agência."

-"Virá alguém da produtora me procurando, digam a ele que desisiti, fui embora, e depois ligo me explicando. Você sabe que ônibus eu pego para o aeroporto?" (Minha bagagem era apenas uma mala pequena).

No aeroporto esperei quatro horas por um vôo, morrendo de medo que eles me procurassem por lá. Fiquei com uma impressão ruim, mas talvez minha avó e eu mesma tenhamos exagerado um pouco, mas devem ter ficado putos da vida; ficaram com imagens minhas que devem ter usado à vontade. Pelo telefone me procuraram depois com uma voz manhosa perguntando o que aconteceu que provocou meu desaparecimento.

- "Sei lá, desapareci e pronto, bye!"

4 comentários:

  1. Muito interessante essa história. E mais interessante ainda o espectro que falou com vc.Acho que ela tem razão. O sexo em si tem que ser livre e é uma maravilha, mas esse povo que ganha dinheiro com ele explorando os outros deve ser meio barra pesada mesmo...Sei lá...sou meio cabreirop com isso.
    Beijão pra tu

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  2. Há 2500 anos atrás Buda ensinou o caminho do meio. O ser terrestre ainda não assimilou isso e então parte para os extremos: ou o voto de castidade desnecessário ou os malabarismos sexuais das produções pornô, com suas crateras anais, duplas penetrações, fist-fukings etc. etc... Na mente das poessoas mediocres sexo é maldade.
    Os produtores pornôs contratam jovens inexperientes que vão ter suas vidas destruídas na irresponsabilidade - é grande o número de atores pornbôs que morrem de overdose ou de suicídio; isso pode soar estranho, mas eu li isso numa revista confiável.

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  3. Pois é... a produção do filme pornô não tem relação com tesão. É sexo industrial. E os atores e atrizes, depois de usados, viram bucha de canhão.
    O curioso é que a sociedade que consome o filme é a mesma que condena os atores ao inferno. Supra sumo da hipocrisia.

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  4. Amiga...vim aqui matar a saudade e te deixar beijos.

    Dri

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