domingo, 6 de dezembro de 2009

O mal era fêmea, no Brasil do século 19.

A mulher era o disfarce do diabo no século 19, faceiras e hipnotizadoras, levavam os homens à perdição, à luxúria.
Malvadas!!!!!!
Raul Pompeia ironiza a fé igrejista no seu romance "O Ateneu".





“Comecei a achar a religião de insuportável melancolia. Morte certa, hora incerta, inferno para sempre, juízo rigoroso; nada mais negro!
(...)
Soavam-me ainda aos ouvidos as prédicas de ascetismo do Barreto. Para ele o mal era fêmea. O Sanches entendia que era macho. Amarrava-lhe um rabo ao cóccix e criava o Satanás bilontra, imoral e alegre. A cauda do demônio do Barreto era de rendas. Na Rua do Ouvidor, faria o Satanás – fanfreluche. Uma coisa horrível, com dois olhos, destinados a perdição dos homens. Saia digna de consideração, só a de padre, que, por sinal, é batina, não é saia. O mais não passava de pretexto da moda parisiense para disfarçar o pé de cabra. Cuidado com Satanás sorriso! um sorriso com duas pernas, um abraço com dois seios, uma pantomima do inferno, faceira, traidora, graciosa e comburente... O menor descuido, desgraça eterna!
Contou-me que o porteiro do seminário em que estivera, para não ser demitido, fora intimado a separar-se da própria irmã. Deus, para vir ao mundo, tinha severamente elaborado o mistério excepcional de uma virgindade sem mancha. E, se não fossem as profecias, que não podiam ficar comprometidas, o veículo a Conceição, por amor da insexual pureza, teria sido o carapina José, ou mesmo o velho Zacarias, ainda mais respeitável pela calva.
A teologia do Barreto me calara fundo, e eu resolvera piedoso enxotar quanta imagem de sorriso viesse pousar-me à idéia. Virando a página dos fervores, a teoria ficou-me de resto, do Satanás feminino.”
(O Ateneu – cap. 05 de Raul Pompéia

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